Capítulo 4: A Confortável Solidão da Servidão

Mello acordou pela terceira vez naquele dia, sentindo o peso da exaustão física e emocional. O desmaio o tinha arrastado para um sono profundo, uma negação necessária após a avalanche de humilhação e o confronto com a crueldade implacável de Nyon. Ele não despertou com o sobressalto de um pesadelo – talvez a sua mente estivesse deliberadamente poupando-o – mas com a sensação desagradável de que cada músculo em seu corpo era feito de chumbo frio. A fraqueza era persistente, uma prova de que a sua cura estendida ao espião de ontem, mesmo que superficial, tinha drenado as suas reservas de forma crítica. Ele precisava de tempo.

A luz na tenda estava filtrada, um tom cinza-claro que indicava que a manhã havia chegado. O cheiro de pinho e antisséptico estava mais suave agora, e ele estava envolto no casaco de pele de urso, que era pesadíssimo, mas reconfortante. Ele se sentou na maca, a cabeça um pouco tonta, mas não a ponto de desmaiar novamente. Ele olhou para o lado: Sergey ainda estava ali, sua saúde melhorando de forma constante. Mello podia sentir o sucesso do seu poder ali, naquele corpo em recuperação. Era um pequeno bálsamo contra a vergonha lancinante das acusações da noite anterior.

Ele esfregou os olhos, tentando afastar a névoa do sono. Ele precisava estar alerta. Nyon havia sido claro: ele era útil, e ter utilidade significava estar pronto para servir a qualquer momento.

Quase como se tivesse sido conjurado pelos seus pensamentos, o som da lona sendo puxada ecoou na tenda. O passo que se seguiu não era o apressado e impaciente de Dimitri, nem o lento e calculista de Nyon. Era Boris. O som de botas pesadas, mas com um certo cuidado.

Boris encheu a abertura da tenda, trazendo consigo o ar frio do exterior, mas a sua presença irradiava um calor peculiar. Ele não parecia tenso ou vigilante; em vez disso, havia uma preocupação suave no seu rosto barbudo e bronzeado. Ele estava tirando as luvas pesadas de lã.

“Aimee, querida. Você finalmente acordou,” Boris disse, sua voz era o sussurro profundo e tranquilizador que Mello havia aprendido a associar com segurança.

Mello tentou mover-se para uma posição mais respeitosa, mas Boris impediu-o com um gesto rápido e gentil.

“Não, não, fique aí,” ele comandou, aproximando-se da maca. Ele não se sentou, mas parou ao lado de Mello, olhando para ele com uma intensidade que era nova. Sua mão grande e calosa — a mesma que havia ajudado a guiá-lo no dia anterior — estendeu-se e tocou a testa de Mello.

O toque de Boris era um choque. Mello estava acostumado ao toque seco e profissional de Dimitri, ou à proximidade calculista de Nyon. O toque de Boris não era nem uma coisa nem outra. Era simplesmente carinho, uma verificação silenciosa e genuína.

“Como você está se sentindo? Dimitri disse que você estava completamente drenada,” Boris perguntou, suavizando a palavra “drenada” com a sua pronúncia russa.

Mello sentiu o rosto esquentar ligeiramente sob o casaco de pele. Ninguém no acampamento, além de Boris, havia demonstrado preocupação de tal forma.

“Estou melhor, Boris. O cansaço é pesado, mas estou me recuperando,” Mello respondeu, mantendo a voz suave e ligeiramente frágil. Ele percebeu que essa fragilidade era exatamente o que Boris esperava e o que o impelia a agir com tal ternura protetora.

Boris apertou o ombro de Mello de leve, um gesto fraternal que, mais uma vez, o surpreendeu. “Isso é bom. Você tem que ser forte para Nyon. Ontem foi demais, até para os mais fortes.”

“Obrigada por me tirar de lá, Boris. Sinto muito pela cena,” Mello disse, referindo-se à humilhação do espião e ao seu subsequente desmaio.

Boris bufou, mas era um som de cumplicidade, não de escárnio. “Não se preocupe com isso, Zoloto. Aquele cão estava tentando envenenar você. Nós ouvimos o tom, Aimee, mesmo que não as palavras. Ele estava atacando você, e Nyon lidou com o intruso. É assim que as coisas são.”

Ele fez uma pausa, os seus olhos azuis claros, normalmente cheios de jovialidade, ficaram sérios. Ele olhou em volta da tenda, para a sobriedade militar e o frio.

“Você é a única mulher aqui, Aimee,” Boris disse de repente, o tom era de lamento. Ele se sentou no banquinho que Dimitri usava, curvando a sua figura imponente ligeiramente para a frente.

Mello notou que o comentário não era uma crítica, mas uma observação carregada de pena. Mello era tratada como uma relíquia exótica no meio da sujeira e do perigo.

“Deve ser tão solitário,” Boris continuou, a sua voz era um murmúrio reflexivo. “Esta guerra, no meio do inverno, tão longe de casa. Nós, os soldados, temos um ao outro, e a vodka,” ele adicionou, com uma tentativa de piada que não se concretizou. “Você não tem nada que a lembre de onde veio. Apenas o frio e nós.”

Mello absorveu a expressão de Boris, sentindo o peso das presunções dele. O tratamento privilegiado que ela recebia — o casaco, a proteção de Nyon, a bondade de Boris — vinha diretamente desta ideia: Aimee era uma flor frágil, deslocada, que precisava de cuidados especiais porque estava sozinha e vulnerável. O Liu Nuan dentro dela, o guerreiro que queria provar-se capaz, tinha que ser totalmente reprimido para cultivar esta percepção. A humildade e a fragilidade eram o seu escudo e a sua arma.

Boris, perdido em seus pensamentos, olhou para Mello com uma ternura quase paterna.

“Diga-me, Aimee,” ele perguntou, de forma direta e sem rodeios, o que era estranho para ele. “Quando é o seu aniversário? Sei que é estranho perguntar, mas...” Ele parou, gesticulando com as mãos. “Queríamos marcar de alguma forma. Para que você se sinta menos... perdida. Menos infeliz.”

A pergunta era tão simples, e tão inesperada, que por um momento Mello quase vacilou. Data de nascimento. Liu Nuan conhecia a sua data perfeitamente; era celebrada anualmente com a sua família. Mas Aimee, a garota da aldeia, tinha que ser um produto da sua nova vida, e a data precisava ser cuidadosamente ajustada. Ninguém, nem mesmo Nyon ou Dimitri, tinha perguntado sobre a sua idade exata.

Mello fez um cálculo mental rápido, baseando-se no tempo que ele estava no acampamento e a sua idade real de dezessete anos. Ele pegou uma data que fosse plausível para uma celebração futura, uma que ainda lhe daria tempo para estabelecer-se mais firmemente na sua função. Uma data que daria a Boris tempo suficiente para satisfazer o seu desejo de mimá-la.

“Meu aniversário,” Mello começou, a sua voz saiu como um suspiro pensativo, a performance era crucial. “É... em seis semanas, Boris. Seis semanas a partir de agora.”

O rosto de Boris se iluminou de satisfação. “Seis semanas. Maravilhoso! Isso nos dá tempo para preparar algo. Um pequeno bolo, talvez. Não será como os de sua casa, mas será um símbolo.”

Ele balançou a cabeça de forma resoluta, como se já tivesse decidido a logística de uma celebração em meio ao caos da guerra.

“Aimee, nós não podemos trazê-la para casa, não agora,” Boris disse, o seu tom era de desculpa sincera. “Mas o Capitão, ele notou que você estava... abatida. E eu também. Você precisa de algo para se agarrar, algo que a lembre de quem você era antes de tudo isso.”

Ele se inclinou, falando em um tom confidencial. “O Capitão me deu permissão. Ele disse que se você pedir algo pequeno para aculturar a sua vida aqui, ele considerará. Algo que a ajude a manter a sua sanidade. Para afastar a solidão.”

O coração de Mello deu um pulo. Isso era mais do que Mello poderia ter esperado. Um presente não de Nyon, mas através da gentileza de Boris. E mais importante, a permissão de Nyon. O Capitão estava ativamente investindo no “bem-estar” de sua nova “mascote de cura”. Não importava a motivação — se era pena ou pragmatismo — o resultado era uma brecha de luxo e conveniência que Mello não podia deixar passar.

A sua mente começou a trabalhar. O que ele precisava? Não comida, Dimitri estava garantindo isso. Não calor, o casaco era suficiente. Ele precisava de algo que o ajudasse a manter a sua disciplina, a sanidade de Liu Nuan disfarçada de Aimee. Algo que o conectasse à sua vida anterior, mas que também fosse útil para manter o disfarce de “garota refinada”. E, crucialmente, algo que fortalecesse o seu poder.

Mello considerou os seus objetivos. Ele precisava de algo que o lembrasse do seu propósito, da sua cultura, do rigor de seu treinamento. E acima de tudo, do seu dever.

Ele inspirou fundo, e o cheiro de pinho e a graxa masculina do acampamento o atingiram. Não. Ele precisava de delicadeza.

“Boris,” Mello disse, a sua voz era um fio. Ele fez um esforço para parecer hesitante, como se o pedido fosse um fardo. “É muito gentil de sua parte, e do Capitão. Eu realmente não esperava... mas se eu puder ter algo...”

Boris o encorajou, gesticulando com a mão. “Peça, Aimee. Nós faremos o nosso melhor.”

Mello fingiu ponderar por um momento, como se estivesse escolhendo um luxo supérfluo.

“Eu sinto falta da minha caligrafia,” Mello disse, a confissão era carregada de uma falsa tristeza. “Eu sempre pratiquei, era a única coisa que me mantinha calma. É muito difícil praticar em... em condições como estas. Eu sinto falta dos pincéis e do papel.”

Mello não estava mentindo completamente. A caligrafia era uma parte essencial do seu treinamento de Liu Nuan. Não era apenas arte; era disciplina, era a meditação em movimento que o ajudava a canalizar a sua mente e, sutilmente, o seu poder de manipular o tempo. Escrever os caracteres milenares era uma forma de ancorar a sua mente no fluxo do tempo, uma prática que ele não podia abandonar sem comprometer o seu treinamento. Pedir por ele com a justificativa de ser apenas um hobby feminino e refinado era perfeito.

Boris franziu a testa, mas logo a sua expressão se suavizou em compreensão. “Caligrafia. Ah, sim. A arte da escrita. É claro. O papel é escasso, mas vou ver se Dimitri tem alguns mapas velhos. E os pincéis... talvez haja algo em uma das caixas de suprimentos. Isso não é um fardo, Aimee. É uma coisa necessária, e completamente compreensível.”

Mello ofereceu um sorriso fraco, de gratidão. Ele tinha acertado. Boris via a caligrafia como uma forma inofensiva de manter a “dama chinesa” entretida e calma.

Mello adicionou um segundo pedido, um pouco mais ousado.

“E se... se fosse possível,” Mello sussurrou, olhando para os pés, como se estivesse envergonhada pela sua extravagância. “Eu... eu sinto falta do cheiro de casa. Incenso. Não precisa ser um caro, apenas um pouco. Para que o ar não seja tão... militar.”

O incenso não era apenas para a fragrância. Mello usava o incenso em seus rituais de meditação, um catalisador para o seu treinamento espiritual e o fortalecimento do seu poder. O cheiro ajudava a limpar a mente do caos e o conectava com as suas raízes.

Boris riu, mas era uma risada suave e compreensiva. “Incenso! Pinho, vodka e pólvora, certo? Sim. Eu entendo. O incenso será mais difícil. Não é um item militarizado. Mas eu vou procurar nos saques, ou nos suprimentos de Nyon. Ele tem gostos... exóticos.” Boris notou os olhos de Mello, que expressavam o medo de ter abusado da sua gentileza. “Não se preocupe, Aimee. Eu farei acontecer. Os dois. É o meu presente, de um soldado para uma donzela sozinha.”

Mello sentiu uma onda de alívio por ter Boris ao seu lado. O soldado russo era um pilar de força e, mais importante, de empatia que Mello precisava desesperadamente. A bondade de Boris era o lubrificante que fazia a máquina da sua servidão mover-se suavemente.

Mello fez uma reverência de agradecimento onde estava sentada. “Obrigada, Boris. Você é o meu anjo da guarda.”

“Não, eu sou apenas um sujeito cansado que sente pena de ver você tão sozinha,” Boris murmurou, e o seu rosto ficou pensativo.

O narrador, observando este momento de troca, podia notar que o tratamento privilegiado que Mello (como Aimee) recebia de Boris não era um incidente isolado, mas uma constante. Desde o momento em que acordara, Mello havia sido tratada com um nível de deferência incomum para uma prisioneira no meio de uma guerra brutal.

Boris era o principal motor dessa proteção. Ele via Mello como a personificação da pureza, uma joia frágil jogada no lodo da guerra, e sentia-se pessoalmente responsável por protegê-la da aspereza do acampamento e, ironicamente, da frieza de Nyon. O Capitão havia dado a ordem de mantê-la segura, mas Boris a cumpria com um fervor quase religioso, impulsionado por uma profunda e paternal pena pela “solidão e fragilidade” da jovem.

Dimitri, por outro lado, era o pragmático irritadiço. Ele a tolerava (e agora a protegia), mas apenas por sua utilidade. Sua proteção se devia ao fator científico: Mello era um recurso a ser estudado, um espécime valioso. Ele garantia a comida, o sono e a higiene para que o “espécime” estivesse em ótimas condições de trabalho.

Entre a pena de Boris e o pragmatismo de Dimitri, Mello tinha criado uma bolha de proteção quase impenetrável dentro do acampamento. O seu disfarce de fragilidade e beleza, o seu cabelo louro chamativo e os seus traços asiáticos atípicos funcionavam como catalisadores para a proteção de ambos. Eles viam nela algo que precisava de cuidados, e essa percepção era o que Mello precisava para manter a sua energia para servir Nyon e recarregar o seu poder.

Boris se levantou, a sua expressão era de um homem com uma missão. “Bem, isso resolve o problema do seu espírito, Aimee. Agora, o problema do seu corpo. Você está exausta. Dimitri e eu tivemos uma conversa com o Capitão. Sua utilidade é importante, o seu descanso é mais importante agora.”

Mello o olhou com atenção. Ele esperava ser convocado para a tenda principal novamente, pronto para curar mais contusões e manter o moral. Ele estava preparado para lutar contra a fraqueza.

“O Capitão Nyon concordou,” Boris continuou, a sua voz era firme e quase oficial, como se estivesse transmitindo uma ordem crucial. “Dissemos que você não pode continuar drenando-se. Que a ‘Mascote de cura’ precisa de tempo para se recuperar de toda a ‘mágoa e exaustão’ que a guerra está a causar no seu delicado ser.”

Mello quase sorriu com a dramatização, mas manteve a sua expressão de gratidão contida.

“Ele concordou que hoje, Aimee, você não fará nada,” Boris declarou. “Nada de trabalho na tenda médica. Nada de limpeza. Você não sairá desta tenda, e você comerá e dormirá o máximo que puder. Você terá o dia livre. Totalmente livre.”

A palavra “livre” soou estranhamente doce no meio daquele acampamento de ferro e gelo. Um dia de descanso não era apenas um luxo, era uma necessidade crítica. O fluxo recente de poder de cura, apesar de ter esgotado Mello inicialmente, havia ativado as suas reservas. Ele precisava absorver e integrar esse poder, e o descanso era o veículo para isso.

“Eu... não sei como agradecer. É uma bondade imerecida,” Mello murmurou, os seus olhos estavam ligeiramente baixos.

“É merecida,” Boris corrigiu-o com firmeza. “Você fez muito naqueles dias. E o que aquele porco gritou ontem... isso a feriu mais do que qualquer luta. Descanse, Aimee. Recupere-se. Pense na caligrafia e no seu incenso. Eu voltarei mais tarde com suprimentos e a sua comida. Coma tudo, sem desculpas.”

Boris se endireitou, a sua figura gigantesca parecia agora um guardião benevolente. Ele fez um aceno de cabeça para a maca de Sergey, certificando-se de que tudo estava em ordem, e então se virou para a saída.

“Até mais tarde, Zoloto,” Boris disse, puxando a lona para trás.

E, com a mesma gentileza que havia entrado, Boris se retirou da tenda, deixando Mello em um silêncio que era quase ensurdecedor.

Mello ficou sentado por um longo momento, assimilando a informação. Um dia inteiro. Livre. Ele estava mimado, sobreprotegido e, em última análise, cuidado. A dureza do acampamento, a constante ameaça da sua identidade de gênero e a humilhação das acusações do espião, tudo isso recuava diante da proteção de Boris e da concessão pragmática de Nyon.

Mello se sentiu estranhamente aquecido. A solicitude de Boris era um bálsamo. Ele tinha a promessa de caligrafia e incenso, os veículos de sua disciplina e de seu poder. Ele tinha o dia inteiro para se refazer.

Ele se aconchegou de volta nas peles pesadas, sentindo o calor. A promessa de Boris de atender aos seus pedidos não era apenas um aceno à sua suposta feminilidade; era um reconhecimento, por parte de Nyon (mesmo que indireto), das suas necessidades básicas de sobrevivência sob o seu disfarce. Ele tinha garantido ferramentas para o seu treinamento sem levantar suspeitas.

Ele fechou os olhos. A fraqueza ainda estava lá, mas já não era incapacitante. Ele podia sentir o fluxo, ainda lento, mas constante, do poder divino a repor-se. Ele precisava se concentrar, se reconectar com a humildade. Ele precisava limpar a vergonha e a confusão da noite passada e voltar a focar na sua servidão.

Ele estava no caminho certo. Ele tinha um propósito, um protetor, e a promessa de um dia inteiro de descanso. Ele precisava de tudo o que pudesse obter antes de retomar a sua “utilidade” para Nyon. Ele não podia falhar ao Capitão; falhar significaria falhar à sua mãe, à sua promessa, e ao seu poder.

Mello se acomodou mais fundo no colchão de lona, sentindo o peso do casaco. Ele estava seguro, temporariamente, na sua bolha de conforto. Ele tinha a permissão para ser frágil e descansar. Ele se concentrou na respiração, no calor das peles, sabendo que cada minuto de descanso era um investimento no seu poder de cura. Ele estava grato a Boris, grato à sua fachada de Aimee. Ele se preparava para dormir, focado apenas em recarregar as energias.

Dormir e recuperar…

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